Revisitando memes: Merenda escolar é hábito alimentar

Bela¬†Gil ‚ÄĒ vulgo, eu mesma ‚ÄĒ e memes se tornaram sin√īnimos durante um per√≠odo e nunca me incomodei com isso, pelo contr√°rio, acho uma forma divertida de difundir assuntos e conhecimentos s√©rios e fundamentais para uma mudan√ßa profunda na nossa sociedade. √Č claro que as redes sociais s√£o um canal direto e aberto para se comunicar com todos os tipos de p√ļblico. Os que se conectam e se identificam com a nossa percep√ß√£o de mundo, e outros que se conectam pela raiva constru√≠da por falta de conhecimento, falta de oportunidade, inveja ou puramente desejo de incomodar o pr√≥ximo, j√° que o anonimato traz um certo tipo de prote√ß√£o.

Hoje resolvi revisitar um capítulo da minha vida no qual fiquei bastante impressionada e me abriu os olhos para entender o tipo de má alimentação que assola o Brasil: estrutural (prometo escrever um coluna só sobre esse assunto), e que a falta de respeito entre as pessoas era muito real. Em 21 de maio de 2015, acordei cedo para preparar o café da manhã e a lancheira da minha filha, Flor. Fiquei contente com a alegria que ela demonstrou ao ver o que eu tinha escolhido pro seu lanche da escola. Tirei uma foto da marmita, coloquei a Flor na condução e saí para gravar o Bela Cozinha, programa de culinária que tenho no canal GNT. Já no carro, no banco de trás, resolvi postar a foto da lancheira composta de banana da terra cozida, batata doce cozida e granola caseira acompanhada de uma garrafinha com água. No final do dia, quando cheguei em casa e olhei as redes sociais, percebi a confusão que a lancheira tinha causado. Tinham seguidores criticando radicalmente o nosso lanche e já outros aplaudindo.

Colocar banana da terra e batata doce na lancheira da minha filha √© primeiramente importante porque ela gosta, ela saboreia, ela se conecta. Comida tem que ser gostosa, e vale mais se perguntar porque n√£o gosta de batata doce e banana da terra do que apontar o dedo ao outro que faz essa escolha. Al√©m do paladar, cultura tamb√©m √© importante quando falamos de alimenta√ß√£o. A batata doce e a banana da terra mostram √† Flor o verdadeiro sabor da nossa terra, a faz ter como lembran√ßa de inf√Ęncia um sabor natural do Brasil e n√£o de alguma f√≥rmula artificial fabricada em laborat√≥rio sem o menor apelo cultural ou afetivo. Tamb√©m me importo com a sa√ļde. N√£o considero biscoito recheado, salgadinho de pacotinho e achocolatados como alimentos nutritivos e proveitosos a serem servidos a uma crian√ßa na merenda escolar. Vale lembrar que a merenda n√£o √© uma festa de anivers√°rio ou uma ocasi√£o especial, √© o lanche que nossos filhos comem 5 vezes por semana, √© a constru√ß√£o de um h√°bito.

Por √ļltimo, mas n√£o menos importante, quando preparamos lanche com produtos mais naturais e caseiros, menos lixo √© produzido. Diferente dos pacotinhos individuais de barrinhas, bolachas, salgadinhos e garrafinhas de achocolatados.

Se como pais, políticos e sociedade em geral não formos conscientes e responsáveis pela alimentação das nossas crianças, incentivando o consumo de vegetais, frutas, legumes e cereais, eles crescerão com o paladar já viciado em produtos ultraprocessados, e com isso perdemos a chance de melhorar o hábito alimentar de uma sociedade em construção.

Os valores est√£o invertidos na nossa sociedade. Muitas pessoas acreditam que sa√ļde √© sin√īnimo de mais hospitais, quando o ideal seria acreditar na promo√ß√£o de uma alimenta√ß√£o e estilo de vida saud√°vel para que n√£o necessit√°ssemos de mais hospitais. Educa√ß√£o n√£o √© s√≥ falar “por favor” e “obrigada” e, sim, saber fazer escolhas que afetem o m√≠nimo poss√≠vel aos outros e ao meio ambiente. Quando todos enxergarmos a alimenta√ß√£o saud√°vel como um investimento e garantia de qualidade de vida, e cozinharmos pensando e respeitando a sa√ļde do corpo, da terra e dos produtores, conseguiremos construir um futuro melhor.

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/12/16/revisitando-memes-merenda-escolar-e-habito-alimentar.htm

O direito à comida vem do (direito ao) solo

Falar sobre alimentação no Brasil e no mundo implica muita reflexão, estudo e atenção ao contexto histórico, político e social do país. Sabemos que comer é um direito que está na nossa Constituição. Com isso, o Estado recebe uma parcela de responsabilidade para com todos os brasileiros em garantir esse ato básico e fundamental para a sobrevivência de cada um de nós.

Tamb√©m ouvimos muito que “comer √© um ato pol√≠tico”. Eu mesma sou uma disseminadora desta frase importante e impactante. Por√©m sabemos que comer s√≥ √© um ato pol√≠tico para aqueles que podem escolher o que comer. A oportunidade de escolha em rela√ß√£o ao que colocar no prato √© essencial para a concretiza√ß√£o desta linda express√£o.

Poder e escolher consumir um alimento org√Ęnico, agroecol√≥gico, proveniente de fazendas, s√≠tios ou assentamentos locais √© grandioso. √Č uma forma de acreditar e investir num mundo melhor, hoje e amanh√£. S√≥ que essa possibilidade n√£o est√° nas m√£os de todos os cidad√£os brasileiros. Muitos at√© sabem dos benef√≠cios dos alimentos org√Ęnicos, mas ficam restritos a consumi-los pela falta de dinheiro ou pela falta de acesso. Acredito que o conhecimento sem o acesso, sem a oportunidade nos mant√©m num mesmo lugar. Portanto mudan√ßas estruturais com foco em pol√≠ticas p√ļblicas s√£o necess√°rias para democratizarmos a alimenta√ß√£o saud√°vel, que √© inviabilizada sem uma democratiza√ß√£o do acesso a terra. Pois, de onde vem a nossa comida?

O Brasil tem uma hist√≥ria de concentra√ß√£o fundi√°ria bem antiga. Desde os tempos do Brasil col√īnia, quando uma pequena parcela da popula√ß√£o era a √ļnica com acesso a terra por meio de doa√ß√£o por parte da coroa ou heran√ßa. Somente em 1850, com a lei de terras que a compra e venda de propriedades rurais foi liberada, por√©m pessoas sem recursos, imigrantes europeus rec√©m-chegados e negros escravizados j√° libertos ficaram sem direito √†s terras livres. Estas foram compradas por fazendeiros que j√° possu√≠am grandes propriedades perpetuando a concentra√ß√£o de terras e um agroneg√≥cio baseado na monocultura, escraviza√ß√£o e produ√ß√£o voltada √† exporta√ß√£o. Sistema agroalimentar que testemunhamos at√© os dias de hoje.

Somos um país sem soberania nem segurança alimentar. Ou seja, nunca houve uma distribuição de terra favorável ao povo brasileiro. Nos dias atuais, 1% das propriedades rurais detém quase metade da área disponível pra cultivo no Brasil.

Quanto maior a concentração de terra, maior a concentração de investimento. Quanto maior a propriedade, mais apoio ela recebe do governo, tanto na parte da tecnologia como nos benefícios fiscais. O que facilita a perpetuação da concentração de terras, da desigualdade social e do aumento da pobreza.

Alimentação como direito começa com o direito a terra. Reforma agrária já!

 Só assim teremos soberania e segurança alimentar!

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/12/02/o-direito-a-comida-vem-do-direito-ao-solo.htm

Educação e acesso são urgentes para melhorarmos a alimentação no Brasil

Educação é um tema recorrente e sempre urgente no Brasil. Podemos falar sobre educação (ou sua falta) em diferentes áreas, como escolar, social, ambiental e muito mais. Como acredito que podemos transformar vidas e consequentemente o planeta através da alimentação, acho importante abordar o tema da educação alimentar e ecológica para a construção de seres mais humanos, mais saudáveis e integrados com a natureza. Pois é sempre bom lembrar que também podemos e devemos aprender a nos alimentar.

Falar sobre educa√ß√£o alimentar √© sempre complexo pois abrange um espectro grande que passa por cultura, acesso, ideologias e principalmente sa√ļde. O que √© bom para um grupo, pode n√£o ser para outro, o que √© vi√°vel para uma parcela da popula√ß√£o n√£o √© para todo mundo, o que √© culturalmente aceit√°vel em uma sociedade pode ser escandaloso para outra e por a√≠ vai. Por isso √© imprescind√≠vel entendermos o que, o quanto e para quem, quando falamos de comida.

Mas algo que estudiosos j√° sabem √© que para nenhum corpo, cultura ou sociedade, o excesso de consumo de produtos ultraprocessados cheios de corantes, conservantes e aromatizantes, o excesso do consumo de a√ß√ļcar, sal e gordura n√£o faz bem e pode levar a doen√ßas s√©rias e fatais como problemas card√≠acos, diabetes, c√Ęncer e doen√ßas respirat√≥rias.

Sabemos tamb√©m que os ultraprocessados s√£o produtos viciantes, altamente acess√≠veis, palat√°veis e pr√°ticos. Ou seja, um competidor com muitas “vantagens” sobre a comida de verdade que vem perdendo espa√ßo na mesa da popula√ß√£o brasileira. Pois fazer comida de verdade d√° mais trabalho sim!

A√≠ entramos na educa√ß√£o, porque tudo que aprendermos desde cedo se torna mais f√°cil e mais pr√°tico. √Č preciso ter intimidade com a cozinha para n√£o ter medo dela. E a pergunta √©: com quem fica essa miss√£o?

Devemos aprender a cozinhar e a comer em casa, na escola, com os programas de culinária ou nas propagandas de TV? A resposta é em todos os lugares, o que temos que prestar atenção é o que se ensina.

Educação alimentar e ecológica são duas urgências na educação do pequeno brasileiro.

Algo que no passado era mais intuitivo e mais presente na vida das crianças, hoje se tornam disciplinas necessárias para a construção de uma sociedade mais saudável.

Dentro de casa, dada as devidas oportunidades, as crianças podem e devem estar mais inseridas no ambiente da cozinha. Crescer perto do fogão faz com que o ato de cozinhar se torne mais natural e fácil de fazer. Assim como quem cresce com uma segunda língua ou nadando, não se assusta com um estrangeiro ou com o mar. Infelizmente hoje temos jovens que se sentem incapazes de fazer um arroz com feijão.

Lavar uma louça, fazer a lista do supermercado, ir à feira para conhecer e escolher os alimentos e conhecer os produtores, lavar uma alface e colocar a mesa são atitudes que podem incentivar a participação das crianças na sua própria alimentação. Crianças gostam de se sentirem capazes e assim ficam mais relaxadas e abertas a experimentarem novos sabores.

J√° nas escolas, a educa√ß√£o alimentar e a alfabetiza√ß√£o bot√Ęnica poderiam ajudar a criar seres humanos mais saud√°veis, emp√°ticos e confort√°veis com a natureza. Crian√ßas que sabem nomear uma √°rvore ter√° mais receio de derrub√°-la. Crian√ßa que cresce em um ambiente no qual beber √°gua √© t√£o ou mais legal que tomar refrigerante, se sentir√° acolhida na sua escolha mais saud√°vel. Da mesma maneira que a arte de dan√ßar, interpretar, cantar, tocar e desenhar est√£o presentes em muitas escolas, adotar as artes mais fundamentais √† vida seria essencial: cozinhar e plantar.

No entanto, temos um sistema educacional baseado no modelo industrial para formar jovens para o mercado de trabalho e n√£o para compreender a vida. N√£o √© do nosso interesse, como sociedade capitalista, ensinar ningu√©m a plantar ou a preparar o seu pr√≥prio alimento, entender d√° onde vem a nossa comida e os impactos das nossas escolhas alimentares na sa√ļde pessoal e do planeta.

Lucrativo é não querer saber como é feita a nossa comida, passar no mercado depois de 12h de trabalho e comprar uma pizza congelada para o jantar.

Educação e acesso são urgentes para melhorarmos a alimentação de todos!

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/11/25/educacao-e-acesso-sao-urgentes-para-melhorarmos-a-alimentacao-no-brasil.htm

 

Para onde vai a sua comida?

√Č muito interessante e importante toda a discuss√£o que existe hoje em rela√ß√£o √† proced√™ncia dos alimentos. Saber a origem da sua comida, quem a produziu, de qual cidade ou regi√£o veio, quantos quil√īmetros percorreu at√© chegar ao prato ou at√© mesmo a sua pegada de carbono s√£o perguntas que muitos foodies fazem antes de escolher o que comer.

Acho estas perguntas e preocupa√ß√Ķes muito validas, inclusive sou uma grande defensora e incentivadora desse tipo de rastreamento. S√≥ que depois de anos trabalhando e estudando sobre comida e sua rela√ß√£o com a nossa sa√ļde e o meio ambiente, comecei a me preocupar tamb√©m sobre o destino dos alimentos.

Lembro que quando ainda morava em NY e cursava a faculdade de nutri√ß√£o, a compostagem j√° era um tema super debatido entre amigos e muitos j√° levavam o seu lixo org√Ęnico para a compostagem coletiva. Quando voltei ao Brasil, em 2015, comecei a separar os res√≠duos org√Ęnicos de casa e o Ciclo Org√Ęnico uma empresa do Rio de Janeiro passava toda a semana para recolher o baldinho para compostagem. Em troca, recebia vasinhos mensais com terra adubada para plantar alguns temperinhos na cozinha e na varanda de casa.

Agora morando em S√£o Paulo, temos uma composteira dom√©stica, tamb√©m conhecida como minhoc√°rio onde damos conta do nosso pr√≥prio restinho de comida (talos, cascas, sementes). Pois nem com todas as receitas de produtos de limpeza do meu √ļltimo livro “Simplesmente Bela” ou receitas de aproveitamento integral dos alimentos do livro “Da Ra√≠z √† Flor” seria poss√≠vel dar conta.

Depois de anos pensando e fazendo compostagem direta ou indiretamente n√£o consigo mais deixar de falar sobre este assunto que me aflige quando usamos a palavra lixo associada a comida.

O que √© lixo para voc√™? J√° parou para pensar sobre a express√£o “jogar fora”? Onde seria este fora?

Lixo nada mais é do que um recurso mal utilizado. E o ser humano se especializou em tornar seus recursos em resíduos e lixo. E comida jamais deveria virar lixo. Com a compostagem, deixamos de enxergar a casca de banana como lixo e sim como um resíduo que no lugar certo se tornará alimento pro solo que nos alimentará novamente com seus cultivos. O ciclo da natureza sempre fecha. Basta a gente deixar a natureza percorrer o seu caminho. Porém com a modernidade e industrialização, nos desconectamos da natureza, e por isso não enxergamos mais o seu caminho. Tiramos os recursos e resíduos do seu ciclo natural, gerando assim o lixo.

Cada brasileiro gera em torno de um quilo de lixo por dia. Cerca de 58% desse total √© representado por lixo org√Ęnico, formado de restos de alimentos (Akatu). A maior parte desse lixo vai parar nos aterros sanit√°rios criando g√°s metano que √© 30 vezes mais potente do que o gas carb√īnico em rela√ß√£o ao efeito estufa.

Como podemos fechar o ciclo dos alimentos?

  • compostagem dom√©stica
  • compostagem urbana
  • energia (transformar g√°s metano dos aterros em biog√°s, uma fonte limpa de energia)

Como colocar em pr√°tica?

  • informa√ß√£o
  • educa√ß√£o
  • boa vontade de pol√≠ticos que se preocupam com esse assunto

Deixo aqui um vídeo para quem quiser aprender mais sobre compostagem doméstica. Meu filho Nino e eu podemos ajudar!

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/11/04/para-onde-vai-a-sua-comida.htm

 

O mito do azeite

O azeite √© a base dos h√°bitos culin√°rios e diet√©ticos de pa√≠ses mediterr√Ęneos como It√°lia, Espanha, Gr√©cia e Portugal, e ao longo dos anos vem conquistando consumidores ao redor do globo. Mas a constru√ß√£o e a destrui√ß√£o de mitos fazem parte da rota da azeitona do Mediterr√Ęneo ao mundo. Azeite previne doen√ßas card√≠acas? Podemos esquentar o azeite? Como se proteger das fraudes na composi√ß√£o do azeite? S√£o tantas d√ļvidas que temos em rela√ß√£o a este √≥leo que muitas vezes optamos por n√£o consumi-lo.

Na d√©cada de 1960, com o in√≠cio da agricultura industrial, as monoculturas de milho e soja passaram a dominar muitas terras ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Am√©rica do Sul. O principal destino do milho e da soja √© para a produ√ß√£o de ra√ß√£o animal para alimentar bois, vacas, porcos e galinhas. E um subproduto dessa ra√ß√£o √© o √≥leo refinado. Portanto, com o objetivo de ganhar mercado e maximizar o lucro, a ind√ļstria de gr√£os criou mitos sobre o consumo de azeite e sua utiliza√ß√£o culin√°ria para incentivar o consumo de √≥leos de gr√£os refinados. A ind√ļstria da soja, principalmente, levou os consumidores a acreditar que o √≥leo de soja √© uma alternativa saud√°vel √†s gorduras saturadas como banha e manteiga e tamb√©m criou o mito de que aquecer o azeite de oliva o torna extremamente t√≥xico. N√£o por acaso, os Estados Unidos, Brasil e Argentina s√£o os principais pa√≠ses produtores de soja e tamb√©m os maiores consumidores de √≥leo de soja refinado do mundo.

No entanto, estes √≥leos refinados passam por um processo de industrializa√ß√£o (prensagem aquecida, banho de solvente qu√≠mico, degomagem, neutraliza√ß√£o, branqueamento, desodoriza√ß√£o) que os tornam inflamat√≥rios e t√≥xicos quando aquecidos. Um estudo mostrou que, quando submetidos ao calor, os √≥leos refinados produzem subst√Ęncias chamadas alde√≠dos. Os alde√≠dos, quando consumidos ou inalados mesmo em pequenas quantidades, s√£o associados ao aumento do risco de doen√ßas card√≠acas e c√Ęncer. √ďleos ricos em gorduras saturadas e monoinsaturadas s√£o os melhores √≥leos para serem submetidos ao calor, pois s√£o mais resistentes √† oxida√ß√£o do que os √°cidos graxos poli-insaturados encontrados em grandes quantidades nos √≥leos de milho, soja e canola, por exemplo. O azeite de oliva √© cerca de 76% monoinsaturado, 14% saturado e apenas 10% poli-insaturado, portanto, uma boa op√ß√£o para cozinhar.

O azeite virgem e extra virgem s√£o √≥leos prensados a frio (pense como um suco fresco de azeitona), que carregam todos os benef√≠cios nutricionais da azeitona, como vitamina E, e diversos antioxidantes. A vitamina E, os antioxidantes, principalmente o betacaroteno e seus √°cidos graxos monoinsaturados protegem o azeite de se tornar ran√ßoso, saturado e oxidado durante o processo de cozimento e frituras a temperatura de 170¬ļC. N√£o √† toa que a dieta mediterr√Ęnea regada ao azeite (de saladas √† frituras) √© considerada, h√° anos, como uma dieta/cultura alimentar saud√°vel.

Azeite é saboroso e nutritivo. E quem quiser experimentar uma receita inusitada de bolo de chocolate com azeite, por favor, se sirva:

Bolo de chocolate com azeite

Ingredientes Bolo

2 xícaras de farinha de trigo

¬Ĺ x√≠cara de cacau em p√≥ (sem adi√ß√£o de a√ß√ļcar)

1 x√≠cara de a√ß√ļcar mascavo

1 colher de sopa rasa de fermento em pó

1 pitada de sal marinho

1 colher de café de canela

¬Ĺ xicara de azeite

1 colher de café de vinagre de maçã

Modo de preparo

  1. Pr√©-aque√ßa o forno √† 180¬ļC
  2. Unte duas formas redondas de 23 cm
  3. Misture numa tigela as farinhas, cacau, fermento, a√ß√ļcar mascavo, sal e canela
  4. Em outro recipiente misture bem o óleo, azeite, vinagre e água
  5. Misture lentamente com uma colher de pau os ingredientes líquidos ao secos
  6. Divida a massa igualmente entre as duas formas e coloque no forno para assar por 35 minutos. N√£o abra o forno nos primeiros 30 minutos para o bolo n√£o solar
  7. Retire do forno e deixe amornar antes de desenformar

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/10/07/o-mito-do-azeite.htm

 

Simplesmente Bela – mais beleza e leveza

Meus √ļltimos textos aqui da coluna estavam um pouco carregados daquela raiva que comentei ser um combust√≠vel para eu continuar a acreditar e exercer o meu trabalho. N√£o quero me deixar levar pela desesperan√ßa, mas tamb√©m cansei de sentir tanta raiva das injusti√ßas, desigualdades e do caos que estamos vivendo. A leveza e a beleza s√£o muito necess√°rias, e √© carregada por elas que vou ao encontro do meu centro.

Então, hoje, decidi falar sobre o meu sexto livro, que traz mensagens e práticas de carinho, cuidado e amor com o nosso corpo e a nossa casa Рa casa sendo o nosso espaço privado, mas também o planeta Terra, como nosso lar.

Terminei de escrever o livro no finalzinho de 2019, e ele estava quase pronto quando o novo coronavírus atingiu o nosso território e a nossa gente. Ao longo das semanas, percebi um movimento de pessoas querendo se cuidar mais, cozinhar mais, cuidar mais da casa e dos filhos, ou seja, tudo aquilo que o livro indicava. Tinha certeza que as receitas do livro poderiam ajudar muitos nessa transição para uma vida mais simples e cheia de propósito.

Corremos com a finaliza√ß√£o do livro e conseguimos lan√ßar agora em setembro. O livro foi lan√ßado dia 17 de setembro, dia do aniversario da minha filha Flor, que completou 12 anos. Inclusive, o livro √© dedicado aos meus filhos e seus companheiros de gera√ß√£o. Pois espero que eles possam ampliar os ensinamentos passados para cultivar um futuro mais harm√īnico com a natureza.

√Č muito bom saber que temos uma gera√ß√£o inteira de seres humaninhos que podem melhorar a vida aqui na Terra. Quando engravidei da Flor, li uma frase do grande poeta e pensador Rabindranath Tagore que dizia: “Cada crian√ßa que nasce √© uma prova de que Deus ainda n√£o perdeu as esperan√ßas na humanidade.

Um alento para quem vai colocar um filho no mundo!

Vivemos em um mundo cada vez mais complexo, e algo dentro de nós pede calma e simplicidade. E nada mais simples do que dedicar um tempo ao trabalho do CUIDAR. Cuidar de si, dos outros e do planeta. Dedicar um tempo a esse trabalho fundamental para a prosperidade da vida humana na terra. Pois sem o cozinhar, limpar, curar e cuidar, a humanidade não vingaria. E o livro é dedicado exatamente a esse processo. Tem receitas de repelente de insetos caseiro, desodorante, pasta de dente, spray para limpeza da cozinha, granola rápida de frigideira, moqueca e muito mais. Tudo isso com componentes naturais e fáceis de encontrar.

Quase todo mundo tem algo que gostaria de melhorar na sua vida, seja na alimentação, na forma de se relacionar com as pessoas, na maneira de educar os filhos, na relação com o meio ambiente ou em vários outros aspectos. E muitos até já sabem o que fazer ou deixar de fazer, só que o ritmo frenético da vida nos engole e nos impede de colocar em prática essas mudanças.

Mas agora, durante a quarentena, n√≥s nos vimos for√ßados a entender de uma vez por todas o que realmente importa. Portanto, este livro √© um convite para largar h√°bitos prejudiciais e acolher novas pr√°ticas positivas para a sua vida. √Č hora de olhar para dentro, olhar para o outro, valorizar os verdadeiros her√≥is, ressignificar o valor da natureza e lembrar que fazemos parte dela.

A hora é agora!

Basta uma oportunidade para que a natureza revele o seu potencial, e espero que este livro seja a oportunidade que faltava para você se tornar a sua melhor versão.

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/09/23/simplesmente-bela—mais-beleza-e-leveza.htm

Biodiversidade como igualdade

Diversidade, representatividade e equidade estão em voga e fico muito feliz de poder participar desses debates em prol da justiça e do bem-estar social.

Em pleno s√©culo 21, ainda h√° uma grande disparidade na oferta de oportunidades de trabalho para diferentes sexos, ra√ßas, orienta√ß√Ķes sexuais, identidades de g√™nero e outros grupos minorit√°rios. Isso torna constante a pauta de discuss√Ķes, reflex√Ķes e a√ß√Ķes para mudar essa situa√ß√£o no ambiente corporativo. Cada vez mais, estrat√©gias e programas est√£o sendo criados dentro das empresas para recrutar e reter talentos diversos. Essa √© uma estrat√©gia para oferecer maiores oportunidades de ingresso ao mercado de trabalho a grupos historicamente discriminados.

Esta passagem acima é de um texto de um site de RH que achei aleatoriamente na internet, porém me fez refletir sobre os nossos hábitos enquanto sociedade que muitas vezes replica e perpetua atitudes da supremacia branca que ainda reina entre nós.

Vocês já pararam para pensar que podemos e devemos trabalhar a diversidade em muitas esferas da nossa sociedade para além do questão de raça e gênero? Diversidade não se deve aplicar somente ao ambiente de trabalho, cultura e política, pois a falta de biodiversidade na nossa alimentação também causas muitos danos socioambientais.

Conhecer e consumir alimentos da biodiversidade brasileira √© uma forma de apoiar os povos tradicionais que vivem da produ√ß√£o ou colheita desses alimentos e ajudar na ingress√£o ao mercado. O coco baba√ßu das quebradeiras do maranh√£o, as castanhas dos extrativistas na Amaz√īnia, a baunilha dos quilombolas de Goi√°s, a pimenta dos povos Baniwa, e tantos outros alimentos nos conectam diretamente com esses povos, dando mais oportunidade para que eles possam exercer seus of√≠cios e permanecer tranquilamente no seu territ√≥rio.

Consumir esses alimentos √© tamb√©m uma forma de conservar a floresta, o Cerrado, a Caatinga e todos os biomas do Brasil em p√©. √Č uma maneira de consumir os diferentes nutrientes e fitoqu√≠micos necess√°rios para a preserva√ß√£o da nossa sa√ļde f√≠sica e alimentar o leque cultural t√£o rico e importante na nossa sociedade. Conhecer a hist√≥ria desses alimentos e de seus povos √© uma linda forma de se conectar com o Brasil mais profundo. Uma deliciosa maneira de descolonizar o nosso prato!

A diversidade racial, sexual, de identidades de g√™nero s√£o importantes para uma vida mais harm√īnica, saud√°vel e divertida. O respeito e a pr√°tica da diversidade como programas de inclus√£o s√£o fundamentais para a sobreviv√™ncia das minorias. Assim como a diversidade alimentar √© fundamental para a sobreviv√™ncia da fauna e da flora, e consequentemente essencial √† humanidade.

N√£o √† toa fa√ßo quest√£o de trabalhar com o que para mim j√° foi s√≥ mais um ingrediente culin√°rio fant√°stico para criar texturas, sabores e cores incr√≠veis no prato. Mas como logo entendi o poder transformador dos alimentos, dei cada vez mais import√Ęncia √† diversidade alimentar constru√≠da com alimentos da biodiversidade brasileira e com as plantas aliment√≠cias n√£o convencionais. Cozinhar com esses alimentos que muitos julgam esquisitos e justificavelmente dif√≠ceis de achar por conta do nosso sistema agroalimentar industrial √© uma forma de resistir e lutar pela diversidade cultural e ambiental da nossa na√ß√£o.

Recentemente testemunhamos a triste morte do menino Miguel que nos mostra como a heran√ßa escravista da sinh√° contempor√Ęnea continua a caracterizar o racismo no Brasil. E a fome que assola as crian√ßas pobres e pretas tamb√©m mostra a heran√ßa da hegemonia latifundi√°ria na produ√ß√£o de alimentos.

O Brasil se fez atrav√©s de explora√ß√£o da terra, dos negros e dos povos origin√°rios criando ac√ļmulos e riquezas para poucos homens brancos. Os latif√ļndios de cana, caf√© e algod√£o sempre fizeram parte da nossa hist√≥ria e hoje se perpetuam sob as lentes do agroneg√≥cio.

Substituir uma caixa de cereal matinal ultraprocessado feito com milho transg√™nico por um cuscuz de milho crioulo √© um ato de resist√™ncia. √Č claro que n√£o s√£o todos que podem fazer do alimento a sua luta, mas do mesmo jeito que algu√©m que est√° numa posi√ß√£o de poder numa empresa deve se atentar √† diversidade racial dos seus funcion√°rios, quem tem conhecimento e oportunidade para diversificar a dieta tamb√©m deve faz√™-lo. Esse √© um dos caminhos para a democratiza√ß√£o da verdadeira alimenta√ß√£o saud√°vel.

Muitos me pedem dicas de como ter uma alimenta√ß√£o mais saud√°vel, mais equilibrada, mais sustent√°vel. A resposta n√£o est√° no alimento x ou y, ou num nutriente espec√≠fico somente, mas na cria√ß√£o de uma cultura de aceita√ß√£o da diversidade alimentar. E isso come√ßa ainda na nossa primeira inf√Ęncia. Crian√ßas que conhecem e saboreiam alimentos da nossa biodiversidade v√£o crescer querendo consumi-los e proteg√™-los.

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/09/09/biodiversidade-como-igualdade.htm

 

Agrofloresta e o caminho da felicidade

Agroflorestar em meio √† pandemia √© sofrer da dualidade dos sentimentos, √© sentir o mist√©rio da consci√™ncia se materializar em ang√ļstia. Digo isso porque implementar uma agrofloresta e produzir parte dos alimentos que consumo sempre foi uma grande vontade pessoal, mas fazer isso num momento no qual muitos est√£o passando fome e milhares de entes am√°veis est√£o morrendo √© desafiador. Acredito que o mesmo deva acontecer com mulheres gr√°vidas e casais rec√©m-apaixonados. Como podemos estar felizes em meio a esse caos? Estar feliz nesse momento √© um ato de ego√≠smo? Mas estar feliz em qualquer momento desta vida tamb√©m n√£o seria ego√≠smo sabendo que muitos ainda sofrem? Me acalmo quando penso que ser feliz faz parte, faz bem e transforma a raiva e a ang√ļstia do privil√©gio em Agrofloresta e o caminho da felicidade Bela Gil transformou o campo de futebol da casa dos pais em Petr√≥polis em uma agrofloresta combust√≠vel para fazermos o nosso melhor, para lutar contra as desigualdades e construir um ambiente mais justo e saud√°vel. Ser feliz vale muito a pena, quando n√£o nos acomodamos.

Poderia divagar aqui sobre felicidade, privilégios e os altos e baixos desta pandemia, mas quero contar sobre a nossa agroflorestal.

Um dia, jantando com meus pais, na casa deles em Petr√≥polis, na serra fluminense, minha m√£e estava reclamando do estresse que √© tomar conta de casa (al√ī para aqueles que acham que quem cuida da casa e/ou dos filhos, n√£o faz nada). No caso da minha m√£e, al√©m de todo o trabalho que ela j√° desempenha fora de casa, gerenciando a carreira do meu pai, tomando conta de um escrit√≥rio e dezenas de funcion√°rios, tamb√©m precisa dar conta do lixo do jardim da casa e do campo de futebol que est√° sendo invadido por bambus. Ela explicou que o lixo era incinerado por ordem do condom√≠nio, mas n√£o estava confort√°vel com a fuma√ßa que isso gerava, e perguntou: ser√° que n√£o tem outro jeito?

Eu fiquei em choque quando soube que toda aquela mat√©ria org√Ęnica do jardim tinha que ser queimada e expliquei as vantagens de criar uma composteira. Sua rea√ß√£o seguinte foi: “t√°, mas onde vamos colocar tudo que for gerado na composteira?” Sem hesitar indaguei: “ent√£o que tal transformar o campo de futebol em uma agrofloresta? Isso pode ajudar a conter o bambu e dar um belo fim √† mat√©ria org√Ęnica residual da cozinha e do jardim.”

Todos na família concordaram, mas meu pai se antecipou e saiu em defesa do neto amante do futebol, e pediu que mudássemos o campo de futebol de lugar. Ele seria 10 vezes menor, mas pelo menos não deixaria de existir.

Negócio fechado!!!

Em seguida, liguei para meu amigo e grande agrofloresteiro Namast√™ Messerschmidt para me ajudar com o novo trabalho, uma nova empreitada e, ao mesmo tempo, a realiza√ß√£o do sonho de poder produzir parte dos nossos alimentos num sistema que acredito ser o mais harm√īnico com a pr√≥pria natureza.

A agrofloresta, ou sistema agroflorestal (SAF), √© um conjunto de t√©cnicas que re√ļne agricultura, preserva√ß√£o e regenera√ß√£o. O sistema usa a din√Ęmica de sucess√£o de esp√©cies da flora nativa para trazer as esp√©cies que agregam benef√≠cios para o terreno, assim como produtos para o agricultor. A agrofloresta recupera antigas t√©cnicas de povos tradicionais de v√°rias partes do mundo, unindo a elas o conhecimento cient√≠fico acumulado sobre a ecofisiologia das esp√©cies vegetais, e sua intera√ß√£o com a fauna nativa. Ou seja, como diz o meu amigo Namast√™, √© a agricultura da paz.

Depois de retirar a grama do campo, tivemos que descompactar o solo com a ajuda de uma tobata (micro trator) e salpicamos um pouquinho de calc√°rio para recuperar o pH do solo, torn√°-lo um pouco mais alcalino. No dia seguinte, fizemos os 18 canteiros onde entrariam as mudas, sementes e todas as plantas que decidimos cultivar. Preparamos as mudas de bananeira, abrimos todos os ber√ßos (ou covas) e plantamos todas as √°rvores e ra√≠zes primeiro, pois elas fazem mais bagun√ßa. No outro dia, colocamos esterco e cama de cavalo (uma mistura de fezes de cavalo com serragem) em cima de todos os canteiros ‚ÄĒ o esterco √© para nutri√ß√£o e cama de cavalo, para a cobertura de solo, dois princ√≠pios fundamentais na agrofloresta. Nos dois √ļltimos dias, plantamos todas as mudinhas de hortali√ßas e as sementes de milho, arroz e feij√£o, e cobrimos todos os caminhos entre os canteiros com poda de √°rvores e bananeiras. Ficou lindo demais!!!

Foram cinco dias de muito trabalho, muita enxada, muito sol na cabeça, mas tudo regado a muito amor, paz e principalmente felicidade. Agora, é deixar a natureza fazer o seu papel com muito cuidado e amparo do nosso lado para colhermos os frutos da felicidade.

Fonte: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/08/26/agrofloresta-e-o-caminho-da-felicidade.htm

 

Café: uma ferramenta de trabalho

Nunca fui de tomar caf√©, sempre preferi o ch√° desde crian√ßa. Apesar de gostar do cheirinho de caf√© passado na hora, o cheiro de caf√© na boca das pessoas logo de manh√£ me dava um pouco de agonia. Na adolesc√™ncia, adotei o consumo do ch√° verde, muito influenciada pelos meus pais que sempre curtiram os ch√°s digestivos e medicinais. Cresci tomando ch√° de carqueja, hab√ļ, folha de goiabeira, folha de pitangueira, artem√≠sia, erva doce, boldo e tantas outras plantas que faziam parte dos tratamentos de diferentes sintomas de mal estar.

No começo da vida adulta, morando em Nova York, assistia com curiosidade aos colegas de faculdade, às amigas e aos nova-iorquinos em geral agarrados com seus copos de café pelo campus da universidade, nas mesas dos restaurantes e pelas ruas movimentadas da cidade que é definitivamente movida a cafeína. Aos poucos fui me interessando pelo café, não pelo seu poder psicoativo de alertar e dar energia a seus consumidores, mas pela curiosidade de saber porque existiam tantos selos e marcas que defendiam um café mais sustentável e socialmente justo. Neste momento decidi me dedicar a compreender toda a cadeia produtiva dos alimentos que consumia.

Em 2015, gravando o programa Bela Cozinha, me vi sentada no camarim muito cansada e contemplando uma garrafa t√©rmica de caf√©. Pensei, ser√° que o caf√© me ajudaria nesse momento? Fui at√© a mesinha e me servi de uma pequena x√≠cara de caf√©, um caf√© qualquer, sem saber a proced√™ncia e muito menos onde ele poderia me levar naquela tarde. Em 15 minutos o meu cora√ß√£o come√ßou a disparar, comecei a sentir uma agita√ß√£o fora do comum e uma euforia que me Caf√©s deixam a concorr√™ncia de lado e criam coletivo para vencer a crise Marca de cosm√©ticos sustent√°veis no Alem√£o triplica vendas na pandemia Caixinhas de suco viram “bicicletas verdes” que ser√£o doadas para ONGs ÓėĄ TOPO BELA GIL ajudou a fazer um programa fluido, alegre e focado. Nota 10 pro caf√© at√© ent√£o. S√≥ n√£o sabia que √† noite n√£o conseguiria dormir, ainda sentindo o cora√ß√£o bater fortemente. Finalmente √†s 4h da manha consegui pregar o olho e adormecer.

Definitivamente, o café me agita, me tira o sono e me dá palpitação. Seu efeito energético vem acompanhado de efeitos colaterais não tão agradáveis. Todavia, desde 2015 venho tomando café esporadicamente e me ajustando a sua potencialidade. Uso café como uma solução para os dias nos quais a preguiça não pode se dar ao luxo de me dominar. Mas também tomo café para acompanhar um pedaço de bolo especial, durante viagens para ajustar o fuso horário e às vezes antes de me exercitar. Não tenho regra, posso tomar café por dias seguidos, e ficar sem por semanas a fio.

Esta saga pelo equilíbrio perfeito do café na minha vida me deixou curiosa sobre essa substancia tão amada e amplamente consumida no mundo, a cafeína. Por que eu conseguia consumir xícaras de chá verde diariamente, inclusive antes de me deitar, e dormir profundamente, enquanto uma xícara de café após o meio-dia só me deixaria dormir de madrugada?

O café, assim como o chá verde (camélia sinensis), chocolate e guaraná contém cafeína. Porém a ciência aponta que ela não é necessariamente absorvida da mesma forma em todos os alimentos.

No caso do café, a absorção da cafeína no intestino acontece de forma rápida e completa, atingindo o pico médio de concentração no sangue entre 15 minutos a 2 horas após a ingestão. O principal efeito da cafeína acontece no cérebro, bloqueando os efeitos de um neurotransmissor chamado adenosina, que relaxa o cérebro e nos faz sentirmos cansados. Normalmente os níveis de adenosina vão aumentando ao longo do dia, junto com a sensação de cansaço e a vontade de dormir. Portando, ao ingerirmos café, a cafeína se conecta aos receptores de adenosina no cérebro, bloqueando o seu efeito e consequentemente nos deixando mais alertas e com mais energia.

No caso do chá verde, por conter polifenois, antioxidantes e aminoacidos como os taninos, as catequinas e L-teanina, pode ser que a cafeína seja absorvida mais lentamente e liberada de forma gradual na corrente sanguínea. Estas são algumas hipóteses que a ciência aponta para diferenciar a ação da cafeína no organismo proveniente do café e do chá. Se depender de mim, meu corpo comprova essa teoria.

Ademais, continuo preferindo chás do que café, no entanto descobri um santo remédio para os dias de trabalho nos quais a cama insiste em me segurar.

A curiosidade do p√ļblico enchia a minha caixa de e-mail e redes sociais com perguntas sobre o caf√©, j√° que pouqu√≠ssimas vezes falei sobre ele em meus programas de culin√°ria. Um dia me debru√ßarei sobre esse fruto mundialmente conhecido e farei um programa sobre caf√©.

Fonte:  https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/bela-gil/2020/08/12/cafe-uma-ferramenta-de-trabalho.htm